27º Domingo do Tempo Comum – 04/10/2026
O Evangelho do Dia
Naquele tempo, disse Jesus aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: 33“Ouvi ainda outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha. Cercou-a com uma cerca, fez nela um lagar e construiu uma torre de guarda. Depois, arrendou-a a vinhateiros e viajou para longe. 34Quando chegou o tempo da colheita, enviou seus servos aos vinhateiros para receber a sua parte dos frutos. 35Os vinhateiros, porém, pegaram os servos, espancaram a um, mataram a outro e apedrejaram um terceiro. 36Enviou de novo outros servos, em maior número que os primeiros. E eles os trataram do mesmo modo. 37Finalmente, enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Com meu filho eles terão respeito’. 38Os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse de sua herança!’ 39E, agarrando-o, arrastaram-no para fora da vinha e o mataram. 40Pois bem, quando o dono da vinha voltar, que fará com esses vinhateiros?”
41Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “Ele destruirá de modo horrível esses criminosos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo”.
42Então Jesus lhes disse: “Vós nunca lestes nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a pedra angular. Isso foi obra do Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos?’ 43Por isso vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos”.
Contexto Histórico e Raízes Litúrgicas
A parábola dos vinhateiros homicidas, proferida por Nosso Senhor Jesus Cristo, encontra suas raízes mais profundas na tradição profética de Israel, ecoando a imagem da vinha como metáfora central para o povo eleito de Deus. O Antigo Testamento, particularmente o profeta Isaías, no seu capítulo 5 (a primeira leitura deste 27º Domingo do Tempo Comum, Ano A), apresenta o “Cântico da Vinha”, onde Deus, o “amigo” ou “amado”, planta uma vinha com todo o cuidado, esperando frutos de justiça, mas ela produz apenas “uvas selvagens” (Isaías 5,1-7). Essa imagem é uma representação eloquente do amor divino e da ingratidão de Israel, que falhou em corresponder à eleição e à aliança.
A parábola de Mateus (21,33-43) não é uma mera repetição, mas uma intensificação dramática do lamento de Isaías. O proprietário da vinha é Deus Pai. A vinha, como antes, é Israel, o povo da Aliança, com todos os seus privilégios: a cerca (a Lei), o lagar (o Templo), e a torre (os profetas ou a proteção divina). Os vinhateiros são os líderes religiosos de Israel — os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo, a quem Jesus se dirige diretamente na narração e questionamento.
A intenção teológica de Mateus ao relatar este evento é multifacetada. Primeiramente, visa denunciar a rejeição persistente dos mensageiros divinos, os profetas, que foram enviados ao longo da história de Israel para exortar o povo à fidelidade. Em segundo lugar, e de forma mais crucial, a parábola aponta para o clímax dessa rejeição: o assassinato do próprio Filho do proprietário, uma clara prefiguração da paixão e morte de Jesus Cristo. Este Filho é o herdeiro legítimo, e a sua morte é um ato de rebelião máxima contra o Pai. Terceiro, e não menos importante, Mateus sublinha a transferência do Reino. A vinha será tirada dos vinhateiros infiéis e entregue a outros que produzam os frutos esperados, anunciando a extensão da salvação aos gentios e a constituição da Igreja como o novo povo de Deus, chamado a dar os verdadeiros frutos da justiça e do Reino.
Análise do Contexto e Simbolismo
A riqueza simbólica desta parábola é imensa. A vinha é, de forma inequívoca, o Reino de Deus na terra, a comunidade da Aliança, que deve produzir frutos de justiça e santidade. O proprietário é Deus Pai, cuja generosidade se manifesta na provisão de todos os recursos necessários para o cultivo da vinha. A cerca, o lagar e a torre são símbolos dos cuidados divinos: a Lei, o Templo e a proteção da Aliança. Os servos sucessivamente enviados representam os profetas e mensageiros de Deus, que ao longo da história de Israel foram sistematicamente maltratados e mortos. O clímax narrativo e teológico reside no envio do filho, o próprio Jesus Cristo. Sua identidade como “o herdeiro” é central, e a recusa dos vinhateiros em reconhecê-lo é o ápice da sua cegueira e obstinação.
A parábola revela a interação dramática entre a humanidade e a divindade de Cristo. Como Filho de Deus, Ele é o herdeiro divino, Aquele a quem a vinha pertence por direito. No entanto, Ele se apresenta em sua humanidade para ser enviado, para sofrer a violência e a morte nas mãos dos vinhateiros. A frase “arrastaram-no para fora da vinha e o mataram” (Mateus 21,39) evoca a realidade histórica de Jesus sendo levado para fora dos muros de Jerusalém para ser crucificado, como um criminoso, rejeitado por aqueles que deveriam tê-lo recebido.
O simbolismo da pedra angular, citado do Salmo 118,22-23 (Mateus 21,42), é a chave interpretativa de toda a parábola. Cristo, rejeitado pelos construtores (os líderes de Israel), torna-se a base fundamental da nova edificação, a Igreja. Esta inversão é a obra “maravilhosa aos nossos olhos”, uma intervenção divina que subverte a lógica humana e estabelece um novo paradigma de salvação. A rejeição de Cristo pelos vinhateiros é, paradoxalmente, o meio pelo qual a nova Aliança é estabelecida e o Reino de Deus é aberto a todos os povos, a “um povo que produzirá frutos” (Mateus 21,43).
A Voz da Tradição: Exegese Patrística
A exegese patrística da parábola dos vinhateiros homicidas ressoa com profunda unanimidade em sua interpretação alegórica e profética. Os Padres da Igreja e Doutores da Igreja veem nesta passagem não apenas uma condenação da incredulidade judaica, mas também um anúncio da nova dispensação da graça.
São João Crisóstomo, em suas Homilias sobre Mateus, comenta com acuidade sobre a paciência de Deus e a maldade dos vinhateiros: “O que significa ‘Com meu filho eles terão respeito’? Não porque Ele não soubesse o que fariam, mas para mostrar a sua grande longanimidade e a impiedade sem limites deles. Ele os enviou para que soubessem que era Filho e que tinham sido confiados a ele, e ainda assim não se converteram. Que desculpa poderiam ter? Depois de todos os servos e profetas, envia o Filho, dando-lhes toda a oportunidade de se arrependerem. Mas eles, não apenas não se arrependeram, como adicionaram o assassinato do Filho aos seus crimes anteriores, pensando que se tornariam os herdeiros”. Crisóstomo, portanto, enfatiza a suprema benevolência de Deus, que se exaure em seu envio final do Filho, e a profunda culpa daqueles que, cientes da identidade do herdeiro, tramam sua morte por avidez e posse.
São Agostinho de Hipona, no seu Questões sobre Mateus e em seus sermões, aprofunda a alegoria, identificando a vinha como a casa de Israel e os vinhateiros como seus líderes. Ele destaca a transição profetizada: “A vinha é a casa de Israel; os vinhateiros são o povo, ou antes, os chefes do povo. O proprietário é Deus. Os servos enviados são os profetas. O último, o Filho, é Cristo. E a pedra rejeitada que se tornou angular é o mesmo Cristo. Porque eles o mataram e o jogaram para fora da vinha, eles perderão a vinha. E esta será entregue a outros vinhateiros, ou seja, à Igreja, que colherá frutos para Deus”. Agostinho conecta a parábola diretamente à fundação da Igreja, interpretando a entrega da vinha a “outros vinhateiros” como a vocação dos gentios e a formação do novo povo de Deus.
São Tomás de Aquino, em sua Catena Aurea, que compila e harmoniza os comentários dos Padres, sintetiza as diversas interpretações, evidenciando a providência divina e a responsabilidade humana. Ao comentar Mateus 21,33, ele cita Orígenes, que observa: “A vinha é a Escritura, que o Senhor plantou e cercou com uma cerca, que é a Lei para mantê-la segura. E fez nela um lagar e construiu uma torre. O lagar é a interpretação profunda da Escritura, e a torre é a altura da profecia”. Tomás de Aquino, através de Orígenes, expande a compreensão da vinha para incluir a revelação divina como um todo, com seus múltiplos níveis de entendimento e proteção. Assim, a rejeição dos vinhateiros não é apenas uma rejeição dos profetas ou do Filho, mas uma rejeição da própria fonte da verdade e da vida.
Em síntese, os Padres convergem na visão de que a parábola é uma história da salvação e da perdição, da paciência divina e da obstinação humana. Ela não apenas narpa a história de Israel e a rejeição de Cristo, mas também prefigura o nascimento da Igreja a partir dessa rejeição, um povo novo que assume a responsabilidade de produzir os frutos do Reino.
Atualização Pastoral e o Mistério na Igreja
A parábola dos vinhateiros homicidas, no 27º Domingo do Tempo Comum, Ano A, ressoa profundamente na vida da Igreja de hoje, clamando por uma atualização pastoral que desvende o mistério de Deus em meio às realidades contemporâneas. A vinha, hoje, somos nós, o Povo de Deus. Cada batizado é um vinhateiro no vasto campo do Reino, chamado a cultivar e a fazer frutificar os dons da graça. A paciência de Deus, que enviou repetidamente seus servos e, por fim, seu Filho, continua a manifestar-se na história da salvação, na presença constante do Espírito Santo, nos Sacramentos e na pregação da Palavra.
É imperativo que os pastores e os leigos de profunda formação teológica compreendam que a tentação dos vinhateiros – a de se apropriar da vinha, esquecendo-se do verdadeiro Proprietário – ainda se manifesta. Manifesta-se no clericalismo, quando o ministro se apropria do rebanho como se fosse seu; manifesta-se no laicismo, quando o fiel leigo concebe a Igreja como uma mera organização humana, despojada de sua dimensão divina e mística; manifesta-se na busca de poder, prestígio e bens materiais dentro da própria estrutura eclesial, esquecendo-se do serviço e da entrega que a vinha do Senhor exige. A arrogância em relação à herança divina, vista nos vinhateiros, traduz-se hoje na resistência à conversão, à escuta profética e à docilidade ao Espírito.
O mistério da “pedra que os construtores rejeitaram” e que se tornou a “pedra angular” é o cerne de nossa fé e ação pastoral. Cristo Crucificado e Ressuscitado é o fundamento inabalável da Igreja. Toda evangelização, catequese, liturgia e caridade deve partir e convergir para Ele. Os Sacramentos são os canais pelos quais o mistério pascal de Cristo opera na alma, transformando o vinhateiro em um colaborador fiel. O Batismo nos insere na vinha, a Eucaristia nos nutre com o fruto da videira verdadeira, a Reconciliação nos restaura após as quedas, a Crisma nos capacita com o Espírito para o testemunho e a missão.
O envio missionário, fruto da Eucaristia, é a resposta pastoral à injunção divina de produzir frutos. A Igreja, como o novo povo de Deus, tem a missão de levar a todos os confins da terra a Boa Nova de Cristo, plantando novas vinhas onde o Evangelho ainda não foi anunciado ou onde ele foi esquecido. Isso implica um testemunho de vida coerente, uma pregação corajosa e uma caridade operosa, que manifestem os frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gálatas 5,22-23). A fecundidade da vinha depende da união com a Videira Verdadeira (João 15,5). É na obediência ao Proprietário e na amorosa entrega do Filho que encontramos o modelo para uma Igreja que frutifica abundantemente, para a glória de Deus Pai.
Fontes e Referências Bibliográficas
- Bíblia Sagrada, edição da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
- Lecionário Dominical e Semanal, Ano A, CNBB.
- Aquino, São Tomás de. Catena Aurea: Commentary on the Four Gospels Collected Out of the Works of the Fathers. Nova York: Cosimo Classics, 2007.
- Agostinho, Santo. Homilias sobre o Evangelho de João. Sermões. Coleção Patrística. São Paulo: Paulus.
- Crisóstomo, São João. Homilias sobre o Evangelho de São Mateus. Coleção Patrística. São Paulo: Paulus.

