Reflexão Exegética: 11º Domingo do Tempo Comum – 14/06/2026
Jesus chamou seus doze discípulos e os enviou.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo
Mateus 9,36-10,8
como ovelhas que não têm pastor.
Então disse a seus discípulos:
e para curarem todo tipo de doença e enfermidade.
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João;
Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
“Não deveis ir aonde moram os pagãos,
nem entrar nas cidades dos samaritanos!
De graça recebestes, de graça deveis dar!”
Palavra da Salvação.
Contexto Histórico e Raízes Litúrgicas
O texto do Evangelho deste 11º Domingo do Tempo Comum, dos capítulos 9º e 10º de Mateus, situa-nos na parte central da atividade ministerial de Jesus na Galileia, um período de intensa pregação e cura. A passagem é um divisor de águas, marcando a transição da ação exclusiva de Jesus para a partilha de sua autoridade e missão com os Doze. Antes de comissionar seus apóstolos, Mateus nos apresenta uma cena que fundamenta essa delegação: a compaixão de Jesus pelas multidões. Estas são descritas como “cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”, (consegue perceber que hoje também muitos estão nesta situação? perdidos sem esperança? nota do autor deste blog). Continuando, esta imagem tem raízes profundas no Antigo Testamento, ecoando a profecia de Ezequiel (Ez 34,5) e Números (Nm 27,17), onde o povo de Israel é frequentemente retratado como um rebanho sem guia, à mercê dos perigos. A ausência de um pastor qualificado, que pudesse conduzir, alimentar e proteger, era uma chaga para o povo de Deus, indicando falha na liderança religiosa da época.
A “messe grande e os trabalhadores poucos” é uma metáfora agrícola comum no contexto bíblico, mas aqui adquire um sentido escatológico e missionário. A colheita representa o tempo do juízo final e da reunião dos eleitos, mas também o momento presente de evangelização. A urgência da messe e a escassez de operários revelam a necessidade premente (urgente, imediato) de engajamento na propagação do Reino de Deus. A oração para que o “dono da messe” envie trabalhadores (Mt 9,38) não é um apelo à passividade, mas uma súplica a Deus Pai, que é o Senhor da messe, para que Ele suscite e envie vocações. Esta é a base teológica para a vocação missionária da Igreja.
A intenção teológica de Mateus ao narrar este evento é multifacetada. Primeiramente, ele estabelece a autoridade divina de Jesus, não apenas como mestre e curador, mas como Aquele que tem o poder de constituir e enviar missionários. Em segundo lugar, o evangelista enfatiza a natureza compassiva da missão de Jesus, que não se limita à instrução, mas se estende à libertação e à cura integral do ser humano. Por fim, Mateus delineia o modelo inicial da missão apostólica: uma missão de proclamação do Reino, acompanhada de sinais de poder (curas e exorcismos), e focada nas “ovelhas perdidas da casa de Israel”. Este foco inicial, embora restrito, é o alicerce para a universalidade da missão que se manifestará plenamente após a Ressurreição (Mt 28,19-20).
Análise do Contexto e Simbolismo
A passagem é rica em simbolismo. A imagem das “multidões cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” evoca uma profunda crise espiritual e social (quantos de nós não nos identificamos neste contexto?). O cansaço pode ser interpretado como o peso da lei e das tradições farisaicas que não traziam alívio; o abatimento, a desesperança diante da opressão e da ausência de uma liderança espiritual autêntica. Jesus, ao ver isso, sente compaixão, um termo grego (σπλαγχνίζομαι – splagchnizomai) que denota uma emoção visceral, que atinge as entranhas, sublinhando a profundidade de seu amor divino e humano. É esta compaixão que o move a agir.
A “messe” simboliza o campo de almas a serem salvas, o vasto número de pessoas que anseiam por Deus, mesmo que inconscientemente. Os “trabalhadores” são os apóstolos e, por extensão, todos os que são chamados a colaborar na obra de salvação. A escassez de operários é um convite à oração e ao discernimento vocacional, uma lembrança perene de que a obra de Deus requer a livre cooperação humana. A convocação dos Doze, número que remete às doze tribos de Israel, simboliza a reconstituição do povo de Deus sob uma nova aliança.
O poder concedido aos discípulos para “expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade” é o sinal visível da chegada do Reino. A divindade de Cristo manifesta-se plenamente ao delegar sua própria autoridade. A humanidade de Jesus é o veículo pelo qual este poder divino se torna acessível aos homens, através de seus apóstolos. Não são curas meramente físicas, mas manifestações do domínio de Deus sobre o mal em todas as suas formas: física, espiritual e moral. A gratuidade do dom (“Recebestes de graça, dai também de graça!”) ressalta que o poder divino não é propriedade dos apóstolos, mas um dom para o serviço, exigindo desapego e pureza de intenção.
A Voz da Tradição: Exegese Patrística
A voz dos Padres da Igreja, ecoando através dos séculos, ilumina as profundezas deste Evangelho. São João Crisóstomo, em suas Homilias sobre Mateus, comenta a compaixão de Cristo pelas multidões: “Aquele que está na natureza do homem, compadece-se do homem, e não se satisfaz apenas com a compaixão, mas, por causa dela, envia seus discípulos”. Para Crisóstomo, a compaixão de Jesus não é uma emoção passiva, mas a causa eficiente de sua ação salvífica e do envio missionário. Ele vê na descrição das multidões a imagem da humanidade sofredora, que só encontra verdadeiro alívio no Pastor divino.
Santo Hilário de Poitiers, em seu Comentário sobre Mateus, aprofunda o sentido da “messe” e dos “trabalhadores”: “A messe é a Igreja, já amadurecida para a ceifa pela colheita dos Apóstolos. Não convém que o dono da messe seja ignorado, pois é Ele quem envia os trabalhadores para a colheita, ou seja, o Pai que envia seu Filho e, por Ele, os Apóstolos para recolherem os frutos da salvação”. Hilário enfatiza que a autoridade para a missão provém diretamente de Deus Pai, e que a Igreja é o campo onde essa colheita se realiza, iniciada pelos apóstolos e continuada por seus sucessores.
São Tomás de Aquino, ao compilar a Catena Aurea, integra esses pensamentos e adiciona sua própria síntese teológica. Sobre o poder concedido aos Doze, ele explica que; “Cristo, como Deus, possuía o poder de expulsar demônios e curar toda enfermidade. Este poder, ele o comunica a seus discípulos, não para que operem por sua própria virtude, mas pela virtude que dele procede. Isso demonstra que eles são seus verdadeiros ministros, pois agem em seu nome e com seu poder”. O Doutor Angélico sublinha a natureza instrumental do poder apostólico, que não é intrínseco aos homens, mas uma participação na autoridade de Cristo, confirmando a divindade de Jesus e a sacramentalidade da missão. A instrução de dar de graça o que de graça receberam é, para ele, um preceito de caridade e de desapego, que deve nortear todo ministério eclesial.
Atualização Pastoral e o Mistério na Igreja
A mensagem deste Evangelho ressoa com particular urgência em nosso tempo. As “multidões cansadas e abatidas” não se restringem ao contexto do primeiro século; elas existem hoje nas periferias existenciais e geográficas, nas almas oprimidas pelo desespero, pela falta de sentido, pela relativização da verdade e pela busca incessante de falsas promessas. A Igreja, continuadora da missão de Cristo, é chamada a ter a mesma compaixão, a não ser indiferente ao sofrimento humano e espiritual que a cerca.
A “grande messe” continua a exigir “trabalhadores” dedicados e fervorosos. Este Evangelho é um perene apelo à oração pelas vocações sacerdotais, religiosas e leigas, para que o Senhor da messe continue a suscitar corações generosos e disponíveis para a evangelização. É também um convite a cada batizado a reconhecer-se como operário na messe do Senhor, utilizando os dons recebidos em serviço ao próximo e à Igreja. A urgência não diminuiu; pelo contrário, aumentou no cenário de uma cultura globalizada que desafia a fé e a moral cristã.
A ação dos Sacramentos na alma é a perpetuação do poder de Cristo delegado aos apóstolos. Pelo Batismo, somos inseridos no Corpo de Cristo e recebemos o Espírito Santo que nos capacita para a missão. Pela Confirmação, somos fortalecidos para testemunhar a fé. Pela Eucaristia, somos alimentados com o Corpo e Sangue de Cristo, fonte e cume de toda a vida cristã e sustento para a caminhada missionária. A Reconciliação nos purifica e nos reintegra plenamente na comunidade. No Sacramento da Ordem, os ministros recebem o poder de pregar, santificar e governar em nome de Cristo, para “curar todo tipo de doença e enfermidade” espiritual e guiar o rebanho.
O envio missionário, fundamentado na compaixão de Cristo e em seu poder, impulsiona a Igreja para fora de si mesma ( Igreja em saída. “A igreja deve sair de si mesma, rumo às periferias existenciais.” Papa Francisco). Não se trata de uma tarefa opcional, mas da própria essência da Igreja. A instrução de proclamar “O Reino do Céu está próximo” continua a ser o cerne do nosso anúncio, pois é a mensagem de esperança e salvação que Jesus trouxe. O mandato de “curar os doentes, ressuscitar os mortos, purificar os leprosos, expulsar os demônios” se traduz hoje em obras de caridade, na defesa da vida em todas as suas fases desde a concepção (intrauterina) até seu declínio natural, na promoção da justiça social, na libertação de todas as formas de escravidão moderna e na proclamação da verdade que liberta. E, sempre, com a gratuidade que advém de ter recebido tudo de graça, o que nos impede de instrumentalizar o Evangelho ou de buscar interesses próprios. A missão é um dom a ser partilhado generosamente, um transbordamento do amor de Deus que habita em nós, para que o mundo creia e tenha vida em abundância.
Fontes e Referências Bibliográficas
- BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB 6ª Edição. Brasília, DF: Edições CNBB, 2024.
- Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Lecionário Dominical e Semanal. https://www.cnbb.org.br/liturgia-diaria/
- Crisóstomo, São João. Homilias sobre o Evangelho de São Mateus.
- Hilário de Poitiers, Santo. Comentário sobre Mateus.
- Aquino, Santo Tomás de. Catena Aurea: Comentário sobre os Evangelhos.
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