Reflexão Exegética: 10º Domingo do Tempo Comum – 07/06/2026
O Evangelho do Dia
Naquele tempo: Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!” Ele se levantou e seguiu a Jesus. Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” Jesus ouviu-os e respondeu: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: ‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’. Porque Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores”.
Contexto Histórico e Raízes Litúrgicas
O evangelho de Mateus, direcionado primariamente a uma comunidade judaico-cristã, busca apresentar Jesus como o Messias prometido nas Escrituras, o cumprimento das profecias veterotestamentárias. A vocação de Mateus, um publicano, insere-se neste propósito, revelando a universalidade da salvação e a subversão dos paradigmas sociais e religiosos da época. Os publicanos, coletores de impostos a serviço do Império Romano, eram duplamente marginalizados: pelos judeus, considerados traidores e impuros; e pelos romanos, muitas vezes vistos como corruptos e desonestos. O ato de Jesus em chamar Mateus de seu posto de cobrança, um lugar de exclusão social e religiosa, remete diretamente à eleição divina que, desde o Antigo Testamento, não se pauta por critérios humanos de pureza ou mérito, mas pela soberana vontade de Deus e sua misericórdia.
As raízes desta perspectiva teológica remontam ao coração da Aliança. Desde a eleição de Abraão, um caldeu, passando pela libertação de um povo escravo no Egito, até a profecia de Oseias, citada por Jesus (“Prefiro a misericórdia ao sacrifício”), percebe-se um fio condutor. Oseias (Os 6,6) denuncia uma religiosidade meramente ritualística e externa, desprovida de um verdadeiro relacionamento de amor e conhecimento de Deus. Os sacrifícios de animais, embora preceituados pela Lei, tornavam-se vazios se não fossem acompanhados de uma disposição interior de compaixão e fidelidade ao Senhor. O chamado de Jesus não é, portanto, uma abolição da Lei, mas o seu cumprimento em plenitude, revelando que o verdadeiro culto agrada a Deus quando brota de um coração transformado pela misericórdia e aberto à comunhão com os marginalizados.
O evangelista Mateus, ao relatar este evento, intenciona demonstrar que o Reino dos Céus está aberto a todos, especialmente àqueles que se reconhecem necessitados da graça divina. A mesa, que no judaísmo era um símbolo de comunhão e pureza ritual, torna-se com Jesus um espaço de inclusão, onde pecadores e justos são convidados a partilhar da mesma refeição, prefigurando o banquete escatológico. É uma afirmação clara de que a presença de Cristo é transformadora e que a sua missão é salvar os perdidos, não endossar a autojustiça dos que se consideram sãos.
Análise do Contexto e Simbolismo
O texto de Mateus 9,9-13 é denso em simbolismo e significado teológico. O gesto de Jesus ao ver Mateus e proferir apenas duas palavras, “Segue-me!”, é uma demonstração da autoridade divina que não precisa de longos discursos. A simples visão de Cristo é capaz de penetrar a alma, e a sua palavra é eficaz para transformar a vida. O banco da coletoria, que para Mateus era o lugar de sua subsistência e, ao mesmo tempo, de sua exclusão, torna-se o limiar de uma nova vocação. Ele se levanta imediatamente, um ato físico que simboliza uma profunda conversão interior: o abandono de uma vida antiga para abraçar o discipulado.
A refeição na casa de Mateus é o ponto fulcral do episódio. Na cultura judaica, partilhar uma refeição significava intimidade, aceitação e comunhão. Ao se sentar à mesa com publicanos e pecadores, Jesus não apenas os aceita, mas se solidariza com eles, rompendo as barreiras sociais e religiosas impostas pelos fariseus. Estes, por sua vez, representam a rigidez da Lei interpretada literalmente, sem a dimensão do amor. Sua pergunta aos discípulos de Jesus – “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” – revela a incompreensão de uma religião focada na separação e na pureza ritual em detrimento da misericórdia.
A resposta de Jesus é uma catequese profunda sobre sua identidade e missão: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes.” Aqui, Cristo se apresenta explicitamente como o Médico divino, cuja autoridade e poder não se limitam à cura física, mas alcançam a alma, curando o pecado. A metáfora da doença e da saúde é um símbolo poderoso da condição humana diante de Deus. Os “doentes” são os pecadores que reconhecem sua fragilidade e necessidade de salvação, enquanto os “sãos” são aqueles que, em sua autojustiça, cegam-se para sua própria enfermidade espiritual. A humanidade de Cristo se revela em sua capacidade de tocar e se relacionar com os marginalizados, enquanto sua divindade se manifesta no poder de perdoar pecados e chamar à conversão.
A citação de Oseias, “Prefiro a misericórdia ao sacrifício”, é a chave hermenêutica do trecho. Não se trata de desprezar o culto sacrificial, mas de resgatar seu sentido mais profundo: a disposição interior de um coração contrito e humilhado, movido pela caridade. O sacrifício exterior sem a misericórdia interior é vazio. A vocação de Jesus, que “não veio chamar os justos, mas sim os pecadores”, sintetiza toda a sua obra redentora, que é a de buscar e salvar o que estava perdido.
A Voz da Tradição: Exegese Patrística
Os Padres da Igreja, iluminados pelo Espírito Santo, aprofundaram a compreensão deste texto evangélico, destacando a soberania da graça divina e a essência da misericórdia de Cristo.
São Jerônimo, em seus comentários sobre Mateus, ressalta a prontidão da resposta de Mateus: “Não lemos que Mateus tenha oferecido um banquete a Cristo; mas que, imediatamente, levantando-se, o seguiu. Nenhuma demora, nenhuma vacilação. Ele não levou em consideração seus lucros, mas desprezou as riquezas, seguindo a salvação. Deixou seus impostos, e com eles toda a cobiça do mundo, para abraçar o jugo suave de Cristo. Muitos depois da conversão se envergonham de sua condição anterior; ele, porém, convidou o Senhor à sua casa, para que, em meio aos pecadores e publicanos, Cristo, o médico, pudesse estar presente, trazendo a salvação aos que estavam doentes.” A pronta resposta de Mateus, portanto, é um testemunho da irresistível graça de Deus, que não encontra obstáculos na condição social ou pecaminosa do homem, mas o chama para uma nova vida.
São João Crisóstomo, em suas Homilias sobre Mateus, aprofunda a metáfora do médico e dos doentes, e a reprovação aos fariseus: “Ele não disse ‘Eu vim chamar pecadores para que permaneçam pecadores’, mas ‘Eu vim chamar pecadores’, isto é, para que se arrependam. Assim como o médico não se aproxima do enfermo para deixá-lo na doença, mas para curá-lo, assim também Cristo não busca os pecadores para deixá-los em seu pecado, mas para libertá-los dele. A reprovação aos fariseus é severa: eles, que se consideravam sãos, eram na verdade os mais doentes, pois sua soberba e autojustiça os impediam de reconhecer sua própria necessidade de Deus e de sua misericórdia.” Crisóstomo, assim, enfatiza que o chamado de Jesus é um chamado à conversão e à cura, e que a soberba é o maior impedimento à graça.
Santo Agostinho, por sua vez, em seus Sermões, explora a natureza do “sacrifício” e da “misericórdia” à luz da citação de Oseias: “Deus não despreza os sacrifícios, mas prefere a misericórdia ao sacrifício, porque a misericórdia é o que prepara o coração para o verdadeiro sacrifício. Não é o ato externo de sacrificar que agrada a Deus, mas a intenção do coração que o oferece. A verdadeira oblação é um coração contrito e humilhado. Quando Jesus diz: ‘Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores’, ele não anula a justiça, mas mostra que a justiça que salva é aquela que se reconhece pecadora e busca a misericórdia de Deus. Os que se julgam justos em si mesmos não buscam o médico, e por isso permanecem em sua doença.” Agostinho, portanto, harmoniza a Lei e a Graça, mostrando que a misericórdia divina é a porta para a verdadeira justiça, que é a santidade.
Em uníssono, a Patrística sublinha que a vocação de Mateus é paradigmática da ação de Cristo, que penetra as estruturas sociais e religiosas para alcançar aqueles que o mundo rejeita. A insistência na misericórdia de Deus como primaz sobre ritos vazios é um tema recorrente, que desafia a autojustiça e convoca à humildade do coração. Cristo, o Médico divino, não se esquiva dos doentes, mas se aproxima deles para oferecer a cura e a salvação, revelando que a verdadeira santidade reside na capacidade de amar a Deus e ao próximo, especialmente os mais necessitados.
Atualização Pastoral e o Mistério na Igreja
O evangelho do 10º Domingo do Tempo Comum ressoa com profunda atualidade na vida da Igreja de hoje, chamando-nos a uma incessante reflexão sobre a natureza da nossa missão e a radicalidade do discipulado. A vocação de Mateus não é um evento isolado do passado, mas um modelo perene da ação de Deus que continua a chamar homens e mulheres de todas as condições para segui-Lo. O chamado de Jesus é sempre pessoal e transformador. Não há lugar tão mundano ou profissão tão “impura” que impeça a voz de Cristo de ressoar e tocar o coração, convidando ao abandono de uma vida antiga e à adesão a um novo caminho.
Para os sacerdotes, esta passagem é um lembrete vívido da prioridade pastoral: sair ao encontro das “ovelhas perdidas”, dos que estão nas periferias existenciais e sociais. A tentação de se fechar em estruturas autojustas, de julgar e afastar em vez de acolher e curar, é um perigo constante. A mesa de Mateus, repleta de publicanos e pecadores, deve ser o paradigma da mesa eucarística, onde todos são convidados à comunhão com o Cristo que se oferece como alimento e remédio para os doentes. A misericórdia não é uma opção, mas a essência do ministério sacerdotal, imitando o Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas.
Para os leigos com profunda formação teológica, o evangelho de Mateus 9,9-13 é um convite a ser agentes da misericórdia no mundo. A Igreja, como Corpo Místico de Cristo, é chamada a ser um “hospital de campanha”, onde os feridos e doentes são acolhidos e tratados. Cada batizado é um missionário, enviado a proclamar o amor de Deus, não com palavras de condenação, mas com gestos de compaixão e solidariedade. A autojustiça farisaica ainda se manifesta em diversas formas em nossas comunidades, e é preciso discernimento para superá-la, abraçando uma fé que se traduz em obras de caridade e em um verdadeiro conhecimento de Deus.
A ação dos Sacramentos na alma é a via privilegiada pela qual o mistério da misericórdia de Cristo se torna eficaz. O Sacramento da Reconciliação, em particular, é o encontro do doente com o Médico divino, onde a confissão do pecado é o primeiro passo para a cura e a restauração da graça. A Eucaristia, por sua vez, é o banquete onde o Médico se oferece como alimento que fortalece a alma, tornando-nos capazes de amar como Ele amou. A mesa da Eucaristia é a extensão da mesa de Mateus, um convite contínuo à comunhão com o Cristo que se entrega por pecadores. É a escola da misericórdia, onde aprendemos a preferir o amor ao sacrifício meramente ritualístico, transformando nossa vida em uma oferenda agradável a Deus.
O envio missionário, inerente à própria natureza da Igreja, brota desta compreensão da misericórdia. Não podemos nos contentar em manter a “saúde” da fé apenas para nós mesmos. Como Mateus, que ao ser chamado, abriu sua casa para que outros pecadores pudessem encontrar Jesus, somos chamados a abrir nossas vidas, nossos corações e nossas comunidades para levar a boa-nova da salvação a todos, especialmente aos mais afastados. A missão é o transbordamento do amor de Deus que recebemos, tornando-nos instrumentos de sua graça para a cura e a conversão do mundo. É preciso coragem para ir ao encontro dos “publicanos e pecadores” do nosso tempo, oferecendo-lhes não o julgamento, mas a esperança e a salvação que só Cristo pode dar. A Igreja é, e deve ser, o sacramento universal da salvação, um sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano, manifestando ao mundo que a misericórdia de Deus é a última palavra sobre a história da humanidade.
Fontes e Referências Bibliográficas
- BÍBLIA SAGRADA. Edição da CNBB. Brasília: Edições CNBB.
- AQUINO, Tomás de. Catena Aurea in Matthaeum.
- AGOSTINHO, Santo. Sermões (diversos).
- CRISÓSTOMO, João. Homilias sobre o Evangelho de Mateus.
- JERÔNIMO, São. Comentário sobre o Evangelho de Mateus.
- LEITURAS DO DIA (CNBB). Disponível em: <https://www.cnbb.org.br/liturgia-diaria/> (Acesso em 05 de junho de 2026).
- LITURGIA DIÁRIA. Pocket Terço. Disponível em: <https://pocketterco.com.br/liturgia-diaria/07-06-2026/> (Acesso em 05 de junho de 2026).
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